
A OPERAÇÃO MAR VERDE
Parte 4 O epílogo
Não se dando o esperado levantamento em todo o país, as forças do FLNG foram incapazes de derrubar o regime, frente ao contra-ataque das forças fieis a Sékou Touré, vindas do interior, e de um contingente de tropas cubanas. Os combates duraram vários dias, sofrendo o FLNG numerosos mortos e 100 dos seus membros são feitos prisioneiros. O ditador guineense acaba por voltar a ter a cidade sob o seu controlo. Os prisioneiros relatam a operação e revelam os nomes dos seus mentores. Segue-se o escândalo internacional, habilmente explorado pelo regime da Guiné-Conakry.
Lisboa nega qualquer envolvimento nos acontecimentos, mas o Conselho de Segurança das Nações Unidas reúne-se de emergência e aprova duas resoluções contra Portugal: uma condenando a Operação Mar Verde, e outra enviando uma comissão de inquérito a Conakry. A Nigéria oferece o envio de um contingente de tropas para evitar novos ataques portugueses. Sékou Touré pede ajuda militar à URSS e aos EUA. A União Soviética responde mandando uma força naval constituída por três navios de guerra, que passa a estar baseada em Conakry, e que fica conhecida como a West Africa Patrol e, nas Nações Unidas, reclama a retirada portuguesa de Bissau.
Quanto aos Estados Unidos, estão furiosos com Portugal. Kissinger explode: «Esta porcaria desta ditadura só nos traz problemas!». Vendo o rapidez com que a URSS tira partido da situação, e sabendo do investimento de companhias mineiras norte-americanas nas reservas de bauxite da Guiné-Conakry, o presidente Nixon atribui ao país ajuda alimentar no valor de 4,7 milhões de dólares. E envia uma carta confidencial a Sékou Touré lamentando os incidentes. No dia seguinte, a Casa Branca é surpreendida pelo ditador guineense, que torna pública a carta, agradecendo-a como «uma mensagem de simpatia e de apoio por ocasião da grave e criminal agressão de Portugal». Por seu lado, a República Federal da Alemanha corta relações diplomáticas com a Guiné-Conakry, em resultado da morte de um diplomata alemão durante os acontecimentos na capital guineense.
Do ponto de vista diplomático, os resultados da Operação Mar Verde são contraproducentes, pois põem em evidência o isolamento internacional de Portugal, e afectaram bastante as relações luso-americanas. Um oficial do Estado-Maior de Spínola desabafou ao Washington Post:
Nós temos que perseguir os guerrilheiros. Mas se fazemos o que os Americanos fazem no Cambodja e no Laos, o mundo inteiro põe-se aos gritos contra nós incluindo os Americanos.
Por outro lado, a URSS e Cuba aumentaram consideravelmente o auxílio material ao PAIGC, e a URSS construiu uma base naval em Conakry, denunciada por Portugal menos de um ano depois. Os soviéticos compensam a perda das quatro lanchas Komar oferecendo à Guiné-Conaktry igual número de P6, e seis lanchas de patrulha costeira. Nos EUA, verificava-se que a URSS se tinha tornado muito mais aventureira na África Ocidental e que Portugal corria o risco de «enfrentar os Soviéticos sozinho».
Na Guiné-Conakry, e na sequência da invasão, a repressão é implacável. Os revoltosos que não são apanhados, são executados sem misericórdia, tal como todos os que são alvo de suspeita. Milhares de pessoas são mortas. Os seus corpos são desmembrados e as ruas de Conakry enchem-se de braços e pernas pendurados de árvores, candeeiros e sinais de trânsito. A população vive aterrorizada.
Quatro corpos baloiçam sob a ponte Tombé, na auto-estrada à entrada de Conakry. Em frente dos corpos em decomposição sob o sol implacável de Janeiro, dançam ignobilmente megeras que exibem nas extremidades de longas varas, os órgãos sexuais dos condenados (Jean Paul Alata, em Prisão de África)
A deserção do tenente Januário e dos vinte homens que o acompanharam, abandonando a equipa SIERRA, é de curta duração: a sua adesão ao PAIGC não é aceite e são fuzilados em Conakry.
Quaisquer que tenham sido os aspectos politicamente negativos, do ponto de vista militar, a Operação Mar Verde demonstrou como um pequeno grupo de tropas bem treinadas pode lançar o caos num país, em ataques cirúrgicos de forças especiais. As tropas portuguesas executaram as suas missões sem o treino específico habitual em raides de operações especiais, uma vez que só tomaram conhecimento da operação horas antes da partida. Ao contrário do inimigo e dos aliados do FLNG, foram para o combate com armas que não eram as regulamentares, muito diferentes das que usavam habitualmente. Tal só foi possível por serem tropas extremamente bem treinadas e experientes. As Forças Armadas, sob a orientação de um militar de excepção como é Alpoim Calvão, demonstraram uma iniciativa e uma capacidade de intervenção surpreendente por parte das Forças Armadas de um país pequeno e que na altura fazia face a uma boa dose de isolamento internacional. Com meios extremamente limitados levaram a cabo uma operação ambiciosa e que, em situação igual, se fosse feita por outras potências (como os EUA ou o Reino, por exemplo) normalmente implicaria o emprego de meios avultados. O exemplo seria seguido, em muito menor dimensão pela África do Sul, com raides de comandos contra os países vizinhos. A Operação Mar Verde foi também fonte de inspiração para o livro «Dogs of War», de Frederick Forsyth.
No seguimento da operação, em 1970, os participantes na Operação Mar Verde e os prisioneiros de guerra libertados em Conakry comprometeram-se a cumprir um pacto de silêncio. Esse pacto foi quebrado por um pequeno número, entre eles o próprio estratego e comandante operacional, Alpoim Calvão, que inclusive publicou um livro sobre os acontecimentos. Outras obras referem esta operação, tendo a estação pública de televisão, a RTP, feito um documentário nos anos 90. No entanto, em 2005, a posição oficial do Estado Português continua a ser que a Operação Mar Verde nunca existiu.
Em 1995, em declarações à RTP, o então Presidente da República da Guiné-Conakry elogiou a invasão do seu país pelos portugueses, vendo-a como uma oportunidade perdida de libertar o país do jugo de Sékou Touré. E disse que os militares portugueses fizeram aquilo que é um desejo natural das Forças Armadas de qualquer país: libertar os seus prisioneiros de guerra.
FIM
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Bibliografia:
«De Conakry ao MDLP», Guilherme de Alpoim Calvão, Intervenção, Lisboa, 1976
«Grande Repórter RTP: A Operação Mar Verde», RTP, 1995
«Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa - Volume VIII: 1808-1975», Saturnino Monteiro, Livraria Sá da Costa, 1997
«Os Americanos e Portugal - Nixon e Caetano - Promessas e abandono», José Freire Antunes, Difusão Cultural, Lisboa, 1986
«A Guerra de África 1961-1974 - Volume I», José Freire Antunes, Círculo de Leitores, Lisboa, 1995
«Liberdade ou Evasão - O mais longo cativeiro da guerra», António Lobato, Editora Erasmos, Amadora, 1995
«Os Últimos Guerreiros do Império», Rui Rodrigues (coordenação), Editora Erasmos, Amadora, 1995
«Guerra Colonial», Aniceto Afonso, Carlos de Matos Gomes, Editorial Notícias, 2000
«Revista da Armada»